Por: Alexandre Caldini

autor do livro "Networking versus Notworking"

Por: Alexandre Caldini

autor do livro "Networking versus Notworking"

30 abril, 2020 • 12:26

Minha amiga Anna Oliveira, do Great Place to Work, gentil e atenta, me enviou um alerta sobre uma inspirada nota no LinkedIn. É de Adam Grant, escritor e estudioso da psicologia das organizações na talvez mais prestigiosa escola de negócios do mundo: Wharton. Em poucas linhas ele afirma que a semana retrasada foi quando, em toda a sua vida, ele se sentiu mais só. Mas, ao invés de se lamentar e dar chance à depressão, Grant tomou uma atitude: fez uma lista das pessoas que ele mais gosta e mandou a cada uma delas uma pequena nota, específica, onde dizia o que mais admira/aprecia nessas pessoas. Diz o autor que ser grato é bom, mas demonstrar gratidão é ainda melhor.

Anna me enviou a nota de Adam Grant sugerindo que eu escrevesse algo sobre Networking inspirado nessa bela ação do escritor norte-americano. Ela acertou em cheio! Essa atitude de Grant é, na minha avaliação, puro e bom Networking. É a essência do que defendo em meu pequeno livro Networking versus Notworking.

O raciocínio é simples, lógico e puro. Pense: como você se sentiria se um amigo querido, ou mesmo um conhecido apenas, lhe enviasse uma nota dizendo que lembrou de você neste período de isolamento social; que gosta de você; e que, em você, admira as seguintes qualidades:  X, Y e Z? Que tal? Você não ficaria feliz? O canto de sua boca não espicharia? Talvez até o brilho de seu olhar deixasse transparecer um pouco de lindo encantamento.

Esse encantar as pessoas é Networking! É o genuíno Networking. O encantamento é a forte solda que une as pessoas e viabiliza excelente convívio com ganho mútuo. Desde que sincero, o elogio é a melhor vitamina para seus relacionamentos. E o que é Networking senão exatamente isso: relacionamentos?

Neste momento de isolamento social, para alguns de nós, pode parecer que pega meio mal pensar em Networking. Pensam assim os que não sabem, de fato, o que é Networking. Esses acham que Networking se faz (primeiro erro: Networking não se faz, se vive) quando se precisa (segundo erro: buscar os outros apenas quando se precisa não é Networking, é usar as pessoas, é Notworking). Acham que seria indelicado, rude mesmo, tentar contato com qualquer pessoa num momento tão crítico da história da humanidade. Esse raciocínio até é compreensível quando se pensa que Networking é apenas uma fria troca de interesses, uma negociação comercial, o buscar de uma vantagem como um novo emprego ou um negócio qualquer. Mas Networking é bem mais e melhor que isso! Networking é viver para se relacionar, viver pelo outro e isso acontece a todo momento de nossas vidas e com todos, poderosos ou não.

Este momento em que o mundo deu uma freada brusca e todos foram obrigados a voltar para a garagem é – também é – um excelente momento para retomar e reforçar laços. É uma boa hora porque você tem tempo para buscar o outro e o outro tem tempo para conectar-se com você. E é também uma boa hora para você reforçar seus relacionamentos, sobretudo porque você e o outro estão mais atentos e mais sensíveis. Por conta do isolamento social e do medo das consequências da pandemia, todos estamos mais abertos ao afeto, ao amor que rege – ou deveria reger – todas as nossas relações, inclusive as profissionais. Este é um momento em que, talvez, estejamos mais atentos e abertos a lidar com sentimentos que, por vezes, no aguerrido ambiente de negócios, escondemos.

O que o psicólogo Adam Grant fez foi dizer aos seus amigos e conhecidos que os ama. Mas como, mesmo para um psicólogo, deve ser difícil dizer que ama os outros, ele optou por dizer o que admira nesses seus contatos. Está bem. Já é um bom passo, ainda mais para alguém não latino, criado ao norte da linha do equador.

Mas e você?

Você que vive no Brasil – um país onde as pessoas, até uns dois meses, se abraçavam, se beijavam, se tocavam – consegue expressar com sinceridade e com todas as letras que ama as pessoas? Difícil, né? Mesmo nós, brasileiros – criados no colo de nossos avós, nos beijos de nossas tias e no cafuné de nossos pais –, temos dificuldade em expressar nosso amor, sobretudo no ambiente de trabalho. Adoramos quando, nos filmes, nas séries e nas novelas, o casal se declara. Choramos quando irmãos se reconciliam nas séries, mas nunca dizemos que amamos nossos irmãos. Será que, neste momento em que estamos todos assustados com a proximidade da morte, não é uma boa hora para dizer para todos os que amamos, exatamente isso: que os amamos?

Networking é viver em rede, em conexão. E as conexões se fortalecem com a sinceridade, a transparência, a confiança e o afeto. E o que é o amor senão saber que você pode contar com aquela pessoa, que ela está e estará com você para dar todo o apoio que precise? Saber disso, que somos amados e que podemos contar com o outro, robustece nosso relacionamento com aquela pessoa. E quando sabemos que o outro gosta da gente e que está por nós, não tem jeito, devolvemos na mesma medida: também gostaremos ainda mais dessa pessoa e por ela igualmente estaremos. É a terceira Lei de Newton, que é também a primeira Lei do Networking: ação e reação.

Então, repensemos o conceito que temos de Networking como apenas uma ferramenta para se dar bem nos negócios e na carreira. Ampliemos nossa compreensão, entendendo que Networking é viver em harmonia e amor pelos outros, muitos outros, todos os outros. Isso também a pandemia está a nos ensinar: compreensão, colaboração, apoio, solidariedade, fraternidade e união. Aproveitemos desse exercício forçado de sensibilização e reforcemos nossos laços com todos os que fazem parte de nossas vidas. Lembremos! Retomemos! Unamos! Elogiemos! Celebremos! Amemos!

Ao final deste período de isolamento social, o mundo seguramente terá mudado. E terá mudado para muito melhor se cada um de nós tiver feito algo para melhorar o modo como nos relacionamos com todos à nossa volta. Um bom caminho é buscar excluir de nosso vocabulário verbos absolutamente comuns e, no entanto, extremamente bélicos e agressivos, como competir, conquistar, tomar, vencer, ganhar, atingir, destruir, bater, acabar, arrasar, dominar. Que tal trocar o “competir” por “colaborar”? O “vencer” por “atingirmos juntos”? O “destruir” por “construir”?

Paremos com a ilusão: a agressividade não é o único nem o melhor modo de tocar nossas carreiras, nossos negócios e nossa vida. Se a agressividade pode ser em alguma medida eficiente, o custo que ela cobra é por demais alto. Talvez, algum dia, o mundo tenha mesmo sido do mais forte, mas o mundo tem mudado bastante. Talvez, depois dessa pandemia, vejamos uma aceleração nessa mudança e o mundo passe a ser dos melhores. E os melhores não são os mais poderosos, nem os mais agressivos, nem os mais ricos. Os melhores, nesse novo mundo que se avizinha, serão os mais sábios, os mais sensíveis, os honestos e os mais fraternos.

Se você já consegue identificar os sinais dessa mudança, que tal tomar essa via e acelerar seu passo? Uma boa ação é fazer como nosso amigo Adam Grant fez: ativar seu Networking, reforçando seus laços com aqueles que admira e ama. Uma rede de pessoas boas, com laços bem apertados, é tudo o que precisamos já, agora, durante a pandemia. E também do que precisaremos, depois, nesse novo e auspicioso mundo, que aos poucos vêm mostrando sua bela e nobre face.

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Confira os artigos de Alexandre Caldini sobre Networking:

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