Por: Daniela Diniz

Por: Daniela Diniz

28 novembro, 2018 • 2:46

Por Daniela Diniz, de Syracuse, NY

Acabei de completar três meses de vida “norte-americana”. Do lado de cá, tenho tido a oportunidade de me debruçar em alguns artigos sobre o nosso maravilhoso mundo do trabalho, conversar com pessoas que trabalham sob um estilo e ritmo completamente diferentes do nosso e, mais do que tudo, viver – nas mais prosaicas atividades do cotidiano – a cultura americana.

Moro na chamada Village de Fayetteville, na grande Syracuse, a menos de uma hora de voo de Nova York. Meu vilarejo – por assim dizer – tem cerca de 5 mil habitantes; Syracuse cerca de 150 mil. A vida por aqui é pacata – e fria, muita fria. A neve chegou sem piedade ainda no outono e as temperaturas registram recordes negativos a cada dia. No auge do inverno, os termômetros costumam baixar dos 30 graus Celsius negativos. Os esquilos passeiam por todos os lados em busca das suas nozes. Por vezes, acho que estou num cenário de desenho animado. Mas deixando as singelezas de lado, o que venho percebendo é que a velocidade das mudanças – que tanto falamos e nos preocupamos – é menor, infinitamente menor por aqui.

Moro numa cidade em que recebemos – pasmem! – o catálogo de páginas amarelas para termos os telefones e endereços de todos os estabelecimentos de Syracuse! Por dia, recebemos em nossa caixa de correio, maços de papel com ofertas de produtos e serviços. A comunicação entre as pessoas é feita majoritariamente por SMS – segundo estudo de 2018 da Statista, empresa alemã com foco em estatística online, pesquisa de mercado e Business Intelligence, apenas 38% dos norte-americanos usa serviços de mensagens instantâneas, como o WhatsApp. E tem os cupons. Ah, os cupons. Em papelzinho mesmo, daqueles que você recorta no jornal (ou numa revista de cupons) para conseguir descontos em todos os lugares. Transformação digital é uma pauta, mas não uma preocupação.

Muito diferente do que vivemos no Brasil? Sinceramente, não. Acontece que os Estados Unidos não são o Vale do Silício assim como o Brasil não é San Pedro Valley, o polo de inovação em Belo Horizonte. Dois países gigantes que abrigam pessoas – e empresas – em diferentes níveis de maturidade em relação a sua vida privada e aos negócios. Muitas vezes, caímos na tentação de generalizar o mundo a partir da nossa própria angústia e dos nossos próprios desafios. E isso é um enorme engano, especialmente quando falamos de gestão de pessoas.

Ao longo da minha carreira, eu visitei mais de 150 companhias pelo Brasil – algumas reuniões eram para conversar com funcionários para me certificar de que aquela era, de fato, uma boa empresa para trabalhar. Outras eram diretamente com o gestor de RH – digo gestor, pois o cargo máximo do responsável pela gestão de pessoas também muda entre as empresas do Sul e do Norte do país, por exemplo. O que venho constatando ao longo de mais de 15 anos de viagens e conversas é que, num universo de quase 5 milhões de empresas brasileiras, segundo dados do IBGE de 2016, temos diferentes níveis de maturidade na gestão de pessoas. E não será a cópia de modelos inovadores e de vanguarda que tornarão magicamente empresas ainda menos maduras em modelos de disrupção. Trata-se de uma jornada e, embora nós corremos contra a velocidade das coisas, precisamos dar algum tempo e repensar nossos valores. Porque estamos falando de pessoas e não de máquinas.

Há empresas – tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos – que estão ainda buscando transformar seu departamento pessoal em uma área de recursos humanos. Outras que estão começando a jornada do RH Estratégico (por mais antiga que essa expressão possa soar aos CHROS da Faria Lima ou da Barra da Tijuca). Há outros que já estão na fase mais avançada – já são capazes de influenciar toda a liderança da organização e guiar as políticas e práticas corporativas. E há ainda o RH com cara de futuro – cuja pauta está mais focada nos muros de fora da empresa – ou seja, seu papel como agente de mudança da sociedade (e não apenas da sua organização). Este RH – que representa uma minoria – está mudando práticas de gestão de pessoas, experimentando novas formas de trabalho, se apoiando fortemente na tecnologia e criando regras para o jogo corporativo. Ele inspira e provoca, mas não serve de modelo para quem ainda está nas primeiras fases de maturidade.

Antes de sair por aí derrubando modelos de avaliações de desempenho, rasgando pesquisas de clima, destruindo paredes e salas, eliminando baias, acabando com os treinamentos para sua liderança, mudando o nome da sua área, questione: em qual fase mesmo de maturidade está a gestão de pessoas da minha empresa? Será que já estou num nível tão avançado que preciso me desprender de ferramentas que estavam me ajudando até aqui porque o ritmo mudou? Será que tudo que valeu até aqui não valerá mais daqui para frente?

Sempre falamos sobre a importância de cada profissional fazer uma autorreflexão e, a partir dela, descobrir suas reais motivações e quais passos devem ser tomados. As empresas deveriam, periodicamente, fazer o mesmo. Especialmente a área de gestão de pessoas. E não se trata apenas do planejamento estratégico atual. Trata-se de algo aparentemente mais simples, mas essencialmente mais profundo. Quem sou? Onde estou? Para onde irei? Ao responder essas três perguntas simples você:

1) Faz um resgate da sua cultura e dos seus valores – pilares essenciais para identificar quais práticas inspiradoras servem ou não para você;

2) Identifica qual seu momento no contexto corporativo;

3) Traça perspectivas futuras, com base na realidade, no seu ambiente e nos seus anseios.

Por mais que a velocidade das mudanças assuste, que novas funções nunca antes imaginadas surjam em menos de cinco anos, que parte das atividades atuais esteja sendo – ou será em breve – substituída por máquinas, que a relação entre trabalhador e empregado esteja mudando, RESPEITE SEU TEMPO DE MUDANÇA. Isso não significa ignorar a transformação digital – o que seria uma enorme ingenuidade –, mas refletir sobre os passos que você está dando rumo a essa jornada.

Ao atropelar as fases da sua jornada em rumo a transformação da sua área, dos seus negócios e da sua vida, você corre o sério risco de não sobreviver. O mundo digital é maravilhoso e permite implementarmos práticas e políticas extraordinárias para quem tem os alicerces bem estruturados. Sem respeitar sua cultura, seus valores e sua história você corre o risco enorme de entrar em areia movediça. E aí, quando tudo estiver desmoronando, vai colocar a culpa na era digital.

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2 Comentários

  • Postado por: Marisa Abujamra •

    Boa reflexão e visão desse panorama tão complexo que vivemos.
    Por isso dizem que estamos vivendo na Era da Complexidade… não podemos colocar tudo dentro do mesmo saco. Cada empresa deve ir ao seu tempo, respeitando o ritmo das conquistas, não adianta queimar etapas e lá na frente ficar perdida.
    Parabéns pelo artigo e excelente abordagem!

  • Postado por: Júlio Cézar Braga •

    Excelente matéria !!! Gostaria de receber dados quantitativos e qualitativos sobre o momento de maturidade dos RHs pesquisados! Qual é a real expectativa das lideranças sobre os RHs e quais os possíveis caminhos

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