Por: Tatiana Iwai

professora e pesquisadora de comportamento e liderança no Insper

Por: Tatiana Iwai

professora e pesquisadora de comportamento e liderança no Insper

8 outubro, 2020 • 9:26

O que o episódio da apresentadora de um dos maiores programas de entrevista da televisão norte-americana nos ensina sobre a responsabilidade do poder

 

Poder é um assunto controverso. Muitas vezes, poder é associado à faceta suja do ambiente organizacional, tomado por batalhas acirradas, mas silenciosas, por influência. Talvez por este motivo, ninguém admite que busca poder. Apesar desta certa aversão pública ao poder, não apenas as pessoas buscam poder, como ele traz inúmeros benefícios aos seus detentores. Poder gera mais oportunidades e mais recursos, o que permite que os poderosos se entrincheirem em suas posições.

Ainda assim, as pessoas eventualmente perdem influência. Como? Veja o recente episódio que envolve a poderosa apresentadora Ellen DeGeneres e os produtores executivos responsáveis por um dos programas de entrevistas mais famosos dos Estados Unidos. São inúmeras as denúncias de colaboradores atuais e passados de um ambiente de trabalho tóxico e intimidador, em que assédio moral e sexual eram normalizados. Todas estas acusações chegam a ser irônicas pelo fato de a própria Ellen ser conhecida pelo lema “seja amável” e defender que seu talk show fosse um local de trabalho de “felicidade” e inclusão. Claramente algo deu errado, como a própria apresentadora escreveu em sua carta de desculpas divulgada em 30 de julho.

Ainda que as acusações mais graves não sejam direcionadas diretamente à Ellen, ela vem sendo cobrada pela sua postura supostamente omissa. Alguns insinuam que ela foi tolerante aos abusos. Outros comentam que ela foi colocada em uma “bolha” e ficou alienada do que ocorria ao seu redor. De uma forma ou de outra, um ex-funcionário do programa foi claro ao dizer que se Ellen quer ter um programa só dela, a apresentadora precisa se responsabilizar pelo que acontece nos seus bastidores. Um golpe duro à reputação da apresentadora, uma das mais poderosas da já poderosa indústria de entretenimento norte-americana. Na esteira do escândalo, alguns produtores executivos foram desligados, a troca de Ellen como apresentadora chegou a ser considerada (porém não foi concretizada) e o programa enfrentou momentos de forte queda de audiência.

Ainda que o escândalo possa ser analisado por diferentes lentes e que o objetivo do texto não seja colocar em xeque as inegáveis e positivas contribuições feitas por Ellen, o episódio nos fornece uma oportunidade para entender algo paradoxal sobre poder. Embora o poder possa criar uma dinâmica própria, por meio da qual as mesmas figuras são conservadas em suas posições de influência; esse mesmo poder acaba sendo, não raras vezes, a causa da sua ruína. Ou seja, o mesmo poder que eleva pessoas a determinada posição pode também contribuir para a queda daqueles que, até então, eram poderosos. Inúmeras pesquisas mostram o potencial efeito corruptível do poder. Explico: uma vez que assumem posições de poder, as pessoas acabam por vezes apresentando comportamentos antiéticos, mais agressivos e abusivos, os quais, por sua vez, contribuem para a perda de poder.

Outras pesquisas apontam ainda que o poder reduz a capacidade das pessoas de assumirem diferentes perspectivas, tornando os poderosos menos empáticos e compassivos aos sentimentos dos outros. O poder ainda pode levar seus detentores a apresentar comportamentos mais autocentrados e a objetificar os outros, fazendo os poderosos se concentrarem apenas em como os outros podem servi-los.

Diante disso, fica a pergunta: por que o poder costuma trazer consigo todos estes comportamentos negativos? Uma conclusão comum aos estudos sobre este assunto é a de que, quando se tem poder, depende-se menos dos outros. Isto causa uma experiência psicológica de distância social entre os poderosos e os outros. Livres das restrições sociais e com menor receio de desaprovação social, a posse do poder induz as pessoas a agir de forma mais desinibida. Agem como querem. Agem como lhes convêm. Por este motivo, diz-se que poder não corrompe. Poder apenas revela. O problema, porém, é que todas estas consequências adversas acabam por apartar as pessoas com poder do seu grupo. Ao buscar apenas seus interesses pessoais e deixar de servir aos outros de forma consistente, os poderosos acabam criando as condições para sua eventual futura derrocada.

Talvez o caminho seja ter em mente a famosa frase da escritora Toni Morrison, agraciada com o Nobel de Literatura. Em certa ocasião, ela disse o seguinte aos seus alunos: “Quando vocês conseguirem estes trabalhos para os quais foram tão brilhantemente treinados, lembrem-se que seu trabalho real é que, se você é livre, você precisa libertar outra pessoa. Se você tem poder, então seu trabalho é empoderar outra pessoa”. Talvez o ex-funcionário do programa da Ellen DeGeneres tenha razão. Ele chamou Ellen, do alto de sua posição de poder, à responsabilidade que o poder trouxe a ela. Para aqueles que detém poder, eles precisam ter a disciplina de não se distanciar daqueles que lideram. É responsabilidade dos detentores de poder se manter conectados e próximos daqueles que dependem deles. O poder é um mecanismo de influência importante para alcançar objetivos. A questão é: objetivos de quem? Apenas os seus? O poder é capaz de gerar mudanças positivas, de mobilizar pessoas e recursos, de fazer as coisas acontecerem. Assim, precisamos fazer melhor uso dele.

Em tempo, na abertura da nova temporada do seu programa, a apresentadora Ellen DeGeneres pediu novamente desculpas públicas e reconheceu a responsabilidade que sua posição de poder e privilégio traz. Ela ainda se comprometeu com a mudança necessária. Talvez um sinal do melhor uso que podemos e devemos fazer do poder. Um novo caminho para Ellen.

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