Por: Tatiana Iwai

professora de comportamento organizacional e liderança do Insper

Por: Tatiana Iwai

professora de comportamento organizacional e liderança do Insper

25 maio, 2020 • 11:42

Voz e silêncio. À primeira vista, parecem simples contrários. Não se iluda: não são! Voz é sobre expressar sugestões, ideias e preocupações. Geralmente, sua face construtiva é fácil de expressar. Quando você vocaliza ideias e sugestões, você é considerado comprometido, inovador e colaborativo. Mas a voz tem outra faceta menos simpática. É sua faceta “proibitiva”, aquela que reporta discordância, aponta falhas ou antecipa problemas. Quando este tipo de voz aparece, seu mensageiro é muitas vezes tachado de problemático, inconveniente, tóxico ou criador de problemas.

Então, tomado por esta percepção de que vocalizar suas reais opiniões e preocupações é arriscada, ou mesmo inútil, o colaborador escolhe calar. Silêncio. E esta é a explicação pela qual voz e silêncio não são contrários. Voz é sobre expressar opiniões. Silêncio não é a simples ausência de voz. Silêncio é sobre querer opinar, ter algo importante a dizer, mas se sentir receoso de fazê-lo. O mais preocupante é que inúmeras pesquisas apontam que a maioria dos colaboradores hesita em falar e isto é um problema generalizado nas organizações.

Se ele é tão comum, uma reflexão importante é: por que o problema de silêncio passa tão desapercebido pelas lideranças nas organizações? Em meio a tantos discursos recentes de liderança participativa e inclusão, por que ainda não resolvemos o problema do silêncio? Líderes, muitas vezes, têm a ilusão de que sabem tudo o que está acontecendo dentro das organizações e que a política de “portas abertas” funciona perfeitamente. Simplesmente deixar a porta da sala aberta não quer dizer que as pessoas se sintam à vontade para adentrá-la. Como a posição de poder dos líderes permite que eles vocalizem com mais facilidade e naturalidade, eles têm mais dificuldade de se colocar na posição dos seus colaboradores. Com isto, eles se tornam míopes sobre a relutância e o temor que colaboradores sentem quando querem expressar problemas e preocupações.

Como, então, habilitar a voz e quebrar o silêncio nas organizações? Poderia, aqui, fazer uma longa lista de iniciativas, mas vamos, por ora, focar em um ambiente de trabalho saudável que valorize comunicação honesta. Sua organização fomenta este ambiente? Antes de responder, não ache que um ambiente de trabalho harmonioso é um que aprecie voz. Não é raro que as pessoas confundam discordâncias ou questionamentos como falta de coesão, desengajamento ou comportamento de boicote. E, por isso, quando há uma voz discordante, ela é sutilmente abafada para não atrapalhar o “clima” ou quebrar o espírito de time. Líderes deveriam desconfiar de excesso de consenso no time e combatê-lo. Como? Neste caso, quem dá o tom é a liderança. Você encoraja as pessoas ao contraditório? Você reconhece a coragem da discordância, quando você a observa em um colaborador? Você é capaz de questionar suas próprias decisões passadas para mostrar aos outros que a análise crítica e construtiva faz parte do processo de melhoria e desenvolvimento?

Quando você se omite de fazê-lo, a escolha padrão dos colaboradores pode ser o silêncio. A ausência de vozes dissonantes e a predominância de concordâncias silenciosas sinalizam apenas aquiescência, que é uma forma mais profunda de silêncio, em que o colaborador perdeu as esperanças de que algo possa mudar ou melhorar e desiste do debate. Há um ditado antigo que diz: “o silêncio fala mais que mil palavras”. Mas cuidado! Quando você ouve apenas silêncio na sua organização, entenda que o recado que ele transmite é um só: há algo profundamente errado no seu ambiente de trabalho.

CTA Mulher 2020 Nossa Vozes - Comunicação - Call to Action

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