Por: Tatiana Iwai

Professora e pesquisadora de comportamento organizacional e liderança no Insper

Por: Tatiana Iwai

Professora e pesquisadora de comportamento organizacional e liderança no Insper

10 junho, 2022 • 10:36

Recentemente ouvi de uma executiva da área de pessoas que, como parte dos esforços de retorno ao escritório no modelo híbrido, a empresa estava tentando incentivar seus funcionários a retornar ao escritório oferecendo sorvete e churros. A ideia era lembrar como o escritório pode ser “divertido” e a experiência no escritório prazerosa. Imediatamente, me lembrei da disseminação de escritórios coloridos, mesas de ping-pong, videogames e guloseimas no trabalho. E não pude deixar de me perguntar como a ideia de experiência do funcionário no trabalho (employee experience) parece ter se resumido a artefatos físicos de uma festa infantil.  

Combine-se a isso, ainda, uma atitude excessivamente positiva no trabalho. Não quero ser ranzinza nem estragar o clima de harmonia, mas conviver com tanta gente que se diz inspirada com #propósito e #gratidão o tempo inteiro pode ser sufocante. Não questiono nem de longe os vários benefícios de nutrir uma mentalidade positiva para persistir, avançar e realizar projetos pessoais e profissionais. Isso é inegavelmente importante. Por outro lado, quando em excesso, ou artificialmente construída, a positividade pode abafar problemas sob um falso verniz lustroso de diversão e felicidade no trabalho.

Os processos não funcionam? As políticas não são claras? Você não se sente reconhecido? Faltam recursos? Você está exausto? Pouco importa, porque aí dizem: “Seja mais positivo e não formule estas questões como problemas. Pare de reclamar e as encare como oportunidades para você se superar, mostrar-se resiliente e contribuir para o propósito coletivo”. A positividade compulsória é, per se, muito exaustiva.  

Em tempos em que se fala tanto da importância de autenticidade no trabalho, é curioso como a positividade compulsória nos permite expressar nosso verdadeiro “eu” apenas se ele for positivo. Caso contrário, guarde-o para si.

É irônico também como em meio a tantos sinais físicos de ambientes divertidos e discursos de positividade, a última pesquisa global da Gallup, publicada em 2021, reporte queda nos níveis de engajamento da força de trabalho. Na pesquisa, apenas 20% dos respondentes foi classificada como “engajada”, ao mesmo tempo que se observou um simultâneo aumento nos níveis reportados de preocupações, estresse, raiva e tristeza no ambiente de trabalho. A pesquisa global do Great Place to Work de 2021 segue a mesma linha e aponta uma experiência persistente de falta de confiança e conexão por parte da força de trabalho. 

Os resultados destas pesquisas são particularmente importantes, porque nos ajudam a refutar a ideia de que o problema é individual. Além disso, ajudam também a normalizar o fato de que não há nada de errado em discordar, criticar, questionar ou entrar em conflito com outros vez ou outra. Um dos maiores riscos deste excesso de positividade é invalidar emoções negativas e críticas no ambiente de trabalho, assim como estereotipar o funcionário que as expressa como “criador de problemas”.  

Obviamente, não é cultivar a crítica pela crítica ou a reclamação pela reclamação, mas apenas não permitir que conflitos, problemas e críticas sejam tamponados e silenciados. Um dos indicadores mais robustos de ambientes saudáveis é aquele em que as pessoas se sentem seguras e confortáveis para vocalizar o que pensam e sentem – desde o espectro mais “positivo” de voz de apoio (sugestões e novas ideias) ao mais “negativo” de voz desafiadora (de críticas, desacordos e preocupações genuínas).

Se apenas a voz de apoio pode ser expressa ou ouvida, então não há ambiente de voz, mas apenas ilusão de voz. E o resultado é uma visão incompleta, míope e, muitas vezes, infantilizada da experiência do funcionário no trabalho. 

Se almejamos construir bases sólidas para a experiência do funcionário no trabalho, precisamos voltar aos fundamentos do que importa. Trabalhos enriquecidos que gerem aprendizado e desenvolvimento, aliados à disponibilidade de recursos adequados para realizá-los. Reconhecimentos concretos. Comunicação clara, periódica e transparente. E o obviamente mais importante: o suporte e a escuta verdadeiramente ativa das lideranças.

Não há nada de errado em relação às mesas de videogames. Nada contra também uma certa dose de otimismo e positividade. Elas são válidas e tem seu valor. Mas é justo também dizer que esperamos, queremos e merecemos mais da nossa experiência no trabalho.

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