Por: Daniela Diniz

Diretora de Conteúdo e Relações Institucionais no GPTW

Por: Daniela Diniz

Diretora de Conteúdo e Relações Institucionais no GPTW

10 março, 2022 • 3:33

O título deste artigo remete a uma palestra que Virginia Woolf deu para o National Society for Women’s Service em 21 de Janeiro de 1931 – Professions for Women.  Na ocasião, a escritora deveria falar sobre sua própria experiência e, sobretudo, sobre as profissões disponíveis para mulheres naquela época. Afinal, trabalhar além do lar era “coisa para mulher”? “A mulher ainda tem muitos fantasmas que combater, muitos preconceitos que superar. Por certo, deverá passar muito tempo ainda, a meu entender, para que uma mulher possa sentar e escrever um livro sem encontrar um fantasma que matar, uma pedra contra a qual bater. E se isso é assim no âmbito da literatura, a mais livre de todas as profissões, o que acontecerá com as novas profissões que vocês estão começando a exercer pela primeira vez?”

Quase um século depois, a pergunta de Virginia ainda faz sentido. Mas a resposta pode surpreender muita gente. Apesar dos fantasmas ainda nos rondarem – aos quais aprendemos a dar o nome de vieses inconscientes – e do preconceito ainda existir não podemos ignorar nossos avanços no mapa profissional. Em 20 anos, o país viu dobrar o número de mulheres que exercem a medicina. Em 1990, elas representavam 30,8% dos médicos no país. Em 2020 já eram 46,6%. Nas faixas mais jovens, as doutoras já superaram seus colegas. Dentre os médicos até 29 anos, elas são 58,6%; dentre os que têm 30 a 34 anos, elas representam 55,3% e a equidade chega na faixa entre os 35 e 39 anos.

Um avanço similar podemos observar nas áreas de Tecnologia. Apesar de a representatividade feminina não passar (ainda) dos 20% nos cargos de TI, o avanço vem sendo acelerado. Segundo o CAGED, nos últimos cinco anos, a participação de mulheres em funções ligadas à Tecnologia cresceu 60%. Se mantiver esse ritmo, a previsão segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) é que, em 10 anos, a participação feminina no mercado de trabalho brasileiro deve crescer mais do que a masculina em muitos segmentos – dentre eles, ciência e tecnologia. Na Ciência, aliás, elas já somam 43,7% dos pesquisadores científicos no Brasil. E só para concluir a safra de bons números, o primeiro lugar no vestibular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, um tradicional celeiro masculino, foi conquistado por uma mulher neste ano. E não foi a primeira vez.

O gargalo, portanto, não está nos cargos de entrada nem mesmo nas áreas que por anos foram consideradas masculinas. Os números parecem nos mostrar que conseguimos provar para a sociedade (e para nós mesmas) que podemos assumir qualquer profissão (portanto, esqueça essa coisa de profissão para mulher). O entrave está nos cargos de Liderança. É aí que os fantasmas que assombraram Virginia voltam a nos perseguir – e com força. Durante séculos esses fantasmas nos disseram que ter uma profissão não era coisa de mulher. Hoje, eles aparecem para dizer que ter um cargo que exige mais responsabilidades não é – vocês sabem – coisa para mulher. Afinal, como nomeou Virginia no texto escrito para sua palestra, o “anjo da casa” vai fazer a seguinte pergunta: quem vai cuidar do resto? Família, casa, educação dos filhos? Você não tem tempo para viajar, mulher! Não pode esticar jornadas! Não deve abrir o computador aos finais de semana! O lar é sagrado e as crianças, nunca esqueçam, precisam da mãe.

Ao dar ouvidos aos fantasmas, as mulheres empacam. Dentre as 150 Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil, elas representam 45% do quadro total de funcionários, mas apenas 24% da alta liderança e 11% dos CEOs. Quando observamos os dados do ranking das Melhores Empresas para a Mulher Trabalhar, os números sobem – mas ainda pouco. Elas já são maioria no quadro total (52%), reforçando a tese de que os espaços foram desbravados. Mas elas seguem parando no meio do caminho. Na alta liderança, representam apenas 26% e, dentre os CEOs, 13%.

Para que possamos espantar esses fantasmas que sussurram suas profecias para mulheres e homens de todas as gerações, precisamos falar sobre eles. Enfrentá-los. Questioná-los e, por fim, superá-los. Afinal, o que ainda nos faz parar no caminho? O que ainda nos faz calar ou dizer “não posso, não quero ou não consigo”? O que ainda nos impede de querer mais? “Quando o caminho está nominalmente aberto – quando não existe nada que impeça que uma mulher seja médica, advogada ou funcionária pública – existem muitos fantasmas e obstáculos, segundo creio, pairando ainda no caminho”, previu Virginia. “Discuti-los e defini-los tem, a meu entender, grande valor e importância, porque só assim é possível compartilhar o trabalho, resolver as dificuldades.”

Que saibamos reconhecer, definir e discutir esses fantasmas para que a próxima etapa seja alcançada. Não existe profissão para mulher. E não existe também cargo para mulher. Podemos escolher a carreira que desejarmos e subir quantos degraus quisermos. 

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