Por: Daniela Diniz

Diretora de Conteúdo e Relações Institucionais no GPTW Brasil

Por: Daniela Diniz

Diretora de Conteúdo e Relações Institucionais no GPTW Brasil

13 julho, 2021 • 2:31

Em fevereiro do ano passado, escrevi um artigo sobre as lições que o mundo corporativo deveria tirar da despedida de Everaldo Marques da ESPN. Evê, como é conhecido o narrador esportivo, deixou a casa após 15 anos para trabalhar – por desejo próprio – na SporTV. Para surpresa de muitos, a ESPN fez uma bela homenagem ao seu talento, desejando sucesso e boa sorte na concorrência. Um pouco mais de um ano depois, presenciamos outra migração no mundo televisivo, que gerou muito mais repercussão do que a despedida de Everaldo Marques: a saída de Fausto Silva da Rede Globo. E não foi o peso da fama que causou mais comoção no público, mas sim a forma como a despedida (ou a não despedida) aconteceu.

Com mais de trinta anos de casa e sendo responsável por garantir a audiência da emissora nas alturas por anos, além dos patrocinadores, Faustão simplesmente saiu. Assim, como quem conclui um projeto de meses, entregando seu show e recebendo sua parte em dinheiro. Diferentemente da cena vivida por Everaldo na ESPN, que esbanjou maturidade ao se despedir de um talento, o mal-estar na saída de Faustão escancarou a realidade da maior parte dos trabalhadores quando deixam seus empregos: a falta de humanidade no processo de desligamento.

E humanidade é mais que respeito. Porque você pode ter uma saída respeitosa ao encerrar um ciclo, pagando todos os direitos, apertando as mãos e desejando sucesso. E isso pode até ter acontecido nos bastidores – quem sabe? – entre Faustão e seus colegas de trabalho. Mas a humanidade vai além. O que está em jogo num desligamento não são peças que são substituídas, trocadas ou descartadas para sempre. São pessoas. E dependendo do legado e da história dessa pessoa, ela merece mais do que respeito apenas – merece reconhecimento, agradecimento e, sobretudo, um desejo genuíno de que o melhor aconteça para os dois lados da história.

Quando os talentos de um time da NBA, a liga de basquete americana, saem de cena, eles têm suas camisas aposentadas em um ritual de homenagem e agradecimento pelos anos de trabalho e dedicação. O mesmo acontece para outras modalidades esportivas, como baseball, futebol americano e hóquei no gelo. Os famosos “hall da fama” também têm o objetivo de reconhecer os profissionais em diferentes categorias pelos trabalhos desempenhados em suas funções. Celebridades reconhecidas nas indústrias cinematográfica, televisiva, música, radiodifusão e teatro podem receber suas homenagens em forma de estrelas na famosa calçada da fama de Hollywood, considerada hoje um patrimônio cultural da cidade.

Todos esses são atos simbólicos que, independentemente do impacto gerado, são maneiras de dizer ‘muito obrigado pelo seu trabalho até aqui’. No fundo, era um pouquinho disso que o público esperava na saída do Faustão, esse ícone do entretenimento brasileiro que, ironicamente, cedeu seu palco para tantas homenagens a brasileiros e brasileiras que deixaram sua marca na televisão.

Não importa aqui os motivos que levaram a decisão de um ou de outro de não ritualizarem essa passagem. A reflexão que convido vocês a fazerem é: quantos Faustões no mundo corporativo saem de cena sem dizer adeus? Seguimos intolerantes com as despedidas de quem anuncia ir para a concorrência, de quem assume que vai se dedicar a outros projetos ou até criar um potencial concorrente para nosso negócio. O fato é que não gostamos de despedidas. Temos receio (alguns têm medo mesmo) do que o “meu” funcionário ou funcionária vai fazer no pós-empresa e temos até inveja do possível sucesso que eles podem ter em outros lugares. Preferimos romper o ciclo, ficar de “mal”, ignorar ou, em alguns casos até ridicularizar, a promover uma relação madura, manter as portas abertas e permitir que os talentos saiam assim como chegaram.

Aos 71 anos, Faustão não dá mostras de que deseja parar de trabalhar tão cedo. Ele é exemplo de uma geração que está aí para mostrar que idade não é empecilho para o trabalho e que, enquanto houver palco e público, vai haver show. Que sua próxima jornada seja próspera e que saibamos reconhecer não somente os talentos com pins de prata e ouro por tempo de casa, mas também aqueles que foram responsáveis por nossas mais incríveis conquistas e decidiram que chegou a hora de pegar outro caminho.

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Crédito da imagem: G1 – O portal de notícias da Globo

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