Por: Daniela Diniz

Diretora de Conteúdo e Relações Institucionais

Por: Daniela Diniz

Diretora de Conteúdo e Relações Institucionais

23 dezembro, 2021 • 4:36

No dia primeiro de dezembro, durante uma reunião por Zoom, Vishal Garg, CEO da empresa de hipoteca Better.com, anunciou – em três minutos – a demissão de 900 funcionários, 9% da sua força de trabalho. Foi curto, grosso e desumano – não apenas pelo ato em si (uma demissão em massa feita de forma remota) mas pelas palavras dirigidas aos colaboradores: “Se você está nesta teleconferência, você faz parte do grupo azarado que está sendo demitido”, anunciando ainda que o contrato de todos seria rescindido com efeito imediato.  

A atitude do CEO da Better.com também teve efeito imediato. Em poucas horas, a história se espalhou nas mídias, ganhando repercussão global, e uma semana depois, Garg foi afastado da empresa.  

O caso da Better.com acontece num momento de grande turbulência nas relações de trabalho – especialmente nos Estados Unidos. O país vem passando por um movimento que já ganhou o nome de Grande Demissão ou Grande Debandada, registrando recordes de pedidos de demissões e de greves trabalhistas.  

De acordo com um levantamento da Cornell University of Industrial and Labor Relations, foram registradas 241 greves no país nos primeiros onze meses de 2021 – um terço delas começando entre Outubro e Novembro. Umas das mais emblemáticas foi a provocada por 1 400 trabalhadores de quatro fábricas da Kellogg’s, que durou mais de dois meses (o acordo foi fechado agora no final de dezembro). Um dos principais motivos da greve era impedir a empresa de forçar as horas extras.  

Neste mesmo mês, alguns supervisores de uma fábrica de velas de Kentucky ameaçaram demitir seus funcionários caso eles abandonassem seus postos para escapar do tornado que atingiu a região – mesmo com o toque das sirenes alertando para o perigo.  

O que esses três casos têm em comum? Uma liderança que comanda, controla e conduz a equipe com ares de superioridade e arrogância, expondo o quão distante ainda estamos da chamada liderança humanizada que apregoamos.  

Seguimos acumulando histórias de horror no mundo corporativo porque temos ainda mais chefes que líderes, que acreditam que o resultado está acima de qualquer ser humano, que funcionário bom é aquele que não falta e que saúde mental é mimimi da moda. Quem perde com isso? Todos: as pessoas, os negócios e a sociedade.  

Em lugares tóxicos, pessoas padecem e negócios atrofiam. E obviamente uma coisa tem a ver com a outra. Pessoas doentes, desmotivadas, sem perspectivas de crescimento estão longe de revelar seu máximo potencial no trabalho. Não performam como poderiam performar e, muitas delas, abandonam o barco em busca de lugares melhores para trabalhar. Alto grau de insatisfação dos que ficam somado ao alto turnover dos que saem geram custos elevados, resultados insatisfatórios e desgaste na imagem e reputação da empresa. Uma bomba relógio bem conhecida, mas que continua sendo armazenada por muitas companhias. Por quê? Porque os líderes não evoluem na mesma proporção que os negócios.  

Eles seguem achando normal demitir pessoas por Zoom, ameaçar de demissão em meio a um tornado, exigir horas extras e mandar cestas de Natal apenas para os funcionários que estão trabalhando presencialmente (sim, esse fato também é verdade). Premiam quem bate metas sem se importar como, valorizam os símbolos de poder e a hierarquia e cultuam a obediência.  

Como consequência, acabam promovendo espelhos de si mesmos e mantendo um legado de tirania. Como romper esse ciclo? Desenvolvendo líderes para o novo mundo do trabalho e estabelecendo novas réguas de promoção e reconhecimento na empresa.  

 Se vivemos num mundo mais flexível (e a pandemia levou essa questão ao extremo), não dá mais para ter líderes que pedem para bater o ponto no Zoom ou entregam cestas de Natal apenas para quem bate ponto no escritório. Se vivemos num mundo que fala de vulnerabilidade e humanização, não dá para admitir posturas como a de Vishal Garg que chama de azarado o grupo e anuncia a demissão em massa.  

Se vivemos num mundo que passou a valorizar mais as soft skills do que as hard skills, não dá para premiar mais quem bate meta e entrega resultados a qualquer custo. Se vivemos num mundo ESG, não dá para abrigar líderes que ignoram as questões ambientais, dão de ombros para ética e promovem relações tóxicas no ambiente de trabalho.  

No mundo atual, não deveria caber mais líderes como Garg ou os supervisores da fábrica de velas de Kentucky.  Esse perfil deveria ser extinto das empresas no lugar de crescer e proliferar. E eu não vejo outra alternativa a não ser a do desenvolvimento e atualização da liderança, com direito a avaliações não apenas sobre sua performance, mas sobre seu legado. Só assim teremos líderes condizentes com o mundo que vivemos hoje e, principalmente, com o mundo que queremos amanhã.

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