Por: Camila Pires Garcia

consultora associada da Plataforma 4daddy, mestranda em Antropologia na Université de Paris V, pesquisadora sobre paternidade participativa no Brasil e sobre pais solos na França

Por: Camila Pires Garcia

consultora associada da Plataforma 4daddy, mestranda em Antropologia na Université de Paris V, pesquisadora sobre paternidade participativa no Brasil e sobre pais solos na França

29 julho, 2020 • 11:00

Nas últimas décadas, as mulheres conquistaram direitos referentes à ocupação de espaços públicos, como o sufrágio feminino, mas a estrutura da divisão sexual do trabalho no ambiente privado pouco foi modificada. Elas continuam sendo responsáveis pelo cuidado das crianças e pelas tarefas domésticas. Isto se reflete nos dados do estudo Outras Formas de Trabalho 2018, com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), que mostram como as brasileiras trabalham quase o dobro de horas que os homens nos afazeres domésticos e cuidados de parentes. Somando as horas de jornadas de trabalho remunerado com o tempo dedicado às tarefas domésticas e cuidado de pessoas, as mulheres trabalham 3,1 horas semanais a mais que os homens. E esta relação desigual tende a aumentar no contexto da pandemia.

Pesquisas europeias demonstraram que durante o confinamento cerca de 60% das francesas declararam estarem realizando mais trabalhos domésticos do que seus companheiros, sendo as principais responsáveis pela preparação de alimento, tarefas domésticas, cuidados e deveres escolares das crianças. Um levantamento com as mães britânicas mostrou que elas estão sendo também as principais impactadas com as interrupções durante o período de trabalho remunerado, tendo em média 1 hora de trabalho sem interrupção para cada 3 horas trabalhadas do companheiro.

Paternidade é uma construção social

A desigualdade de gênero se mostra enraizada no imaginário coletivo, como podemos constatar na fala da antropóloga Adriana Piscitelli, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero-PAGU: “para o senso comum, a capacidade de conceber filhos das mulheres costuma ser interpretada como principal atividade destas e, portanto, a maternidade, o espaço doméstico e familiar são vistos como seu principal local de atuação”. Portanto não atuação do pai/homem.

Ao colocarmos todos no ambiente doméstico, os dois princípios organizadores nas sociedades patriarcais tendem a ser reforçados, o princípio da separação (existem trabalhos diferentes para homens e mulheres) e o princípio hierárquico (um trabalho dos homens vale mais do que das mulheres), explicados pelas sociólogas Helena Hirata e Danièle Kergoat. Isso se reflete muitas vezes nos tipos de atividades realizadas pelos pais, como vemos que a maioria dos pais brasileiros relata brincar com as crianças (83%, segundo o IPEA), no entanto, atividades como dar banho (55%) e cozinhar (46%), são bem menos citadas  e acabam sendo destinadas majoritariamente de forma compulsória às mães.

Mesmo que exista um crescente interesse dos homens em participar do cotidiano e do crescimentos dos filhos, que considerem esta função tão importante quanto a profissional, pais participativos ainda são a exceção, segundo a antropóloga francesa Agnés Martial.

No entanto, um dos fatores apontados como desencadeador de mudança é a vivência do cotidiano com filhos no ambiente privado. Para as famílias que têm condições de ficar em isolamento social, vale aproveitar este momento para ressignificar algumas coisas, dentre elas a paternidade. Nesse sentido, o diálogo voltado para os aprendizados relacionados a paternidade participativa podem ajudar a definir uma nova perspectiva familiar.

Uma janela de oportunidade

A quarentena se apresenta como um momento favorável para a mudança. Pela 1º vez no Brasil, temos o tempo para tal adaptação (para quem pode estar de quarentena), a demanda social por igualdade de gênero, somado ao respaldo jurídico com leis explícitas e medidas jurídicas e sociais para garantir a integridade das mulheres e direitos iguais. Mesmo que o tema seja negligenciado no ambiente público, fica a sugestão para reflexão de transformar neste momento o seu ambiente privado.

 

Crédito da foto: Family photo created by freepik – www.freepik.com

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