Por: Daniela Diniz

Diretora de Conteúdo e Relações do GPTW e ecossistema Great People

Por: Daniela Diniz

Diretora de Conteúdo e Relações do GPTW e ecossistema Great People

22 agosto, 2019 • 2:39

Em 1997, o Brasil conhecia – pela primeira vez – as Melhores Empresas para Trabalhar no país. Apenas 30 passaram pelas várias triagens da primeira apuração do gênero já feita no país. Para chegar ao seleto grupo, o time responsável pela pesquisa enviou questionários para mais de 4 mil executivos, perguntando quais – na opinião deles – seriam as companhias que melhor ofereciam condições de trabalho a seus funcionários. Dessa “entrevista”, apenas 130 empresas foram apontadas (todas acima de 300 empregados).

Esse grupo foi convidado a participar da pesquisa composta por dois tipos de questionários: um voltado para os funcionários e o outro, para o RH. O objetivo era identificar se esse grupo era bom mesmo, especialmente na percepção do seu time. Apenas 78 aceitaram o desafio. Destas, 30 foram consideradas as Melhores.

Não foi apenas o interesse das empresas que mudou em 23 anos de pesquisa (em 2019, participaram do processo 2.645 companhias), mas a ideia do que é ser um bom lugar para trabalhar. A começar pelo tamanho das empresas. Durante os primeiros anos de ranking, o conceito de bom empregador estava muito atrelado ao porte da organização. Grandes empresas, com muitos processos e nomes conhecidos, faziam parte do imaginário do que seria um excelente lugar para trabalhar. “Ser sólida, ter um fluxo de caixa saudável, um nome forte no mercado e não se preocupar com folha de pagamento” eram atributos de uma organização de ponta para o funcionário.

Ao longo da história das melhores empresas, esse conceito mudou um pouco. Até porque ser uma excelente empresa para trabalhar é causa de sua boa reputação (e não consequência). O tamanho e fama, portanto, deixaram de ser uma barreira que separava as melhores das, digamos, comuns. Hoje, o ranking que dá origem às Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil contempla empresas a partir de 100 funcionários.

Há ainda, porém, uma enorme parcela de empresas muito boas para se trabalhar, certificadas pelo Great Place to Work, com menos de 100 funcionários – entre elas, muitas startups que vêm dando um novo tom à algumas práticas de recursos humanos.

Outra diferença está na ênfase dada ao salário e benefícios. Excelentes empresas – em sua esmagadora maioria – pagavam muito acima da média e eram reconhecidas pelos seus agressivos pacotes de remuneração. Ainda hoje, o grupo de elite do cenário corporativo brasileiro, se destaca pelos benefícios oferecidos aos seus funcionários, mas eles não são atrelados apenas à “coisas”, como um plano de saúde top de linha, automóveis para liderança, bônus polpudo, stock options, mas à experiência (de massagens à viagens) e, principalmente, à flexibilidade.

Sim, a possibilidade de equilibrar vida e trabalho com mais autonomia e liberdade tornou-se um atrativo muito maior do que um gordo pacote de remuneração. Como consequência, práticas ligadas à qualidade de vida (de esportes coletivos ao avanço do home office) entraram para valer nas melhores empresas.

Chefe x Líder

Ao ler depoimentos dos funcionários das Melhores Empresas para Trabalhar do final da década de 90 e início dos anos 2000, chama a atenção a quantidade de vezes que a palavra “chefe” é usada. O chefe que “permitia” seu funcionário entrar na “sua sala” com uma boa ideia a qualquer momento era – realmente – uma pessoa quase iluminada. Hoje, a frase pode soar no mínimo estranha.

Afinal, chefes quase não têm sala. E chefes bons viraram líderes ou gestores que no lugar de “permitir” novas ideias, convocam o time para pensar juntos.

Os melhores das melhores

Após os dois primeiros anos de ranking, as melhores empresas para trabalhar tornaram-se alvo de candidatos a um emprego. Todos queriam uma vaga naquelas que sabiam – como poucos – cuidar dos seus “principais ativos”.

Até hoje, estar no ranking das Melhores coloca a organização num alto patamar de atratividade de talentos. As 150 classificadas em 2019, por exemplo, receberam em média 56 mil currículos no último ano. Mas quem era o candidato ideal para o grupo das Melhores?

A discussão sobre escassez de talentos no ambiente de trabalho ganha força no final de década de 90 e as credenciais para entrar no pelotão de elite das empresas são várias: “ter diploma de uma escola reconhecida e inglês fluente são fundamentais para trabalhar nas melhores”, revelava a pesquisa de 1998. Sem eles, o candidato não passava da primeira fase de entrevista.

As atitudes também pesavam, porém menos. E estas não mudaram tanto nesses 20 anos: “criatividade, vontade de aprender, habilidades para trabalhar em equipe, foco no cliente e resultado.” A exceção está na busca por profissionais “ambiciosos com desejo de crescer na empresa”. Ou seja, mais do que brilho nos olhos, elas buscavam quem tinha sangue nos olhos.

Diversidade – como se pode observar ao ler as exigências da época – não era um valor, nem uma preocupação, muito menos uma meta. E aí, talvez, esteja a grande diferença entre as Melhores do passado e as Melhores de hoje.  Ao ler a infinidade de dados e relatos das empresas que passaram pelos rankings do Great Place to Work, podemos observar como elas – mais do que acompanhar a evolução deste tema – foram muitas vezes as grandes responsáveis por levantar esta pauta na sociedade.

A história das Melhores Empresas mostra que estas têm essa função de fazer a gestão de pessoas além dos muros – e muitas foram as que, ao longo dos anos de pesquisa, estiverem à frente da própria sociedade no assunto diversidade e inclusão. Foram pioneiras em estender benefícios de saúde a parceiros do mesmo sexo, por exemplo, e pioneiras em criar comitês específicos para tratar de temas de diversidade.

Hoje, esse grupo tem uma maturidade muito superior à média nacional em relação a políticas e práticas de inclusão. Não à toa, dentre as 150 Melhores Empresas para Trabalhar deste ano, 83% têm uma pessoa responsável por combater a discriminação e promover a diversidade no ambiente de trabalho.

Com isso, o talento não é apenas o profissional que fez a faculdade top de linha, intercâmbio de um ano no exterior e fala inglês fluente. O talento é – muitas vezes – quem superou adversidades para fazer uma graduação e, com muita criatividade, espírito de equipe, ousadia e vontade infinita de aprender, vai trazer a realidade do mercado para a empresa.

As Melhores de hoje estão muito mais abertas às várias possibilidades de talentos e sabem que, quanto mais inclusivas, mais inovadoras elas se tornam.

Ok, e o que não mudou?

A base da história das melhores empresas para trabalhar – seja a de 1997 ou de 2019 – está na construção de um ambiente de confiança. E podemos dizer que isso não mudou – e não vai mudar nunca. Quanto mais confiança houver nas relações de trabalho – entre líderes e time, entre pares, entre CEOs e Conselho –, maior a autonomia e, consequentemente, maior o engajamento e a satisfação em trabalhar. E a confiança está pautada na transparência, o que exige uma excelente comunicação e alinhamento entre todos.

Cultura é o pilar que sustenta o todo. Empresas que conhecem bem – e valorizam – sua cultura, se adequam mais aos muitos momentos de mudança que o mundo exige. As práticas mudam, os currículos mudam, mas os valores se mantêm firmes e fortes, o que faz com que estas empresas saibam escolher melhor o time que vai remar junto – não importa quais correntezas terá pela frente.

As excelentes empresas continuam desenvolvendo os melhores profissionais para o mercado de trabalho. A diferença é que elas trocaram a palavra “retenção” por “engajamento” e buscam que esse casamento seja feliz, não necessariamente longo.

Por fim, as melhores são mais rentáveis. Há inúmeros exemplos de 1997 até 2019 de que o time que compõe o ranking tem um retorno sobre o patrimônio maior que a média. Em 1998, por exemplo, o primeiro lugar no setor de bebidas ficou com a Brahma (antes de nascer a AmBev), cujo lucro líquido havia crescido 17% entre 1996 e 1997. O setor inteiro na média só havia aumentado 1,7% no mesmo período. Em 2018, por exemplo, o faturamento das organizações premiadas apresentou crescimento de 2,0% contra 1,0% do PIB do Brasil.

As melhores são maiores. Não em tamanho, mas em grandeza. E seguem sendo referência para todas as organizações que buscam construir uma sociedade melhor.

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7 Comentários

  • Postado por: Gilmar Prado •

    Acho que o texto ajuda muito na reflexão do papel das empresas numa sociedade, ora sendo propulsora das mudanças e noutras horas refletindo a sociedade onde está inserida.
    Parabéns por proporcionar essa viagem no tempo do mercado de trabalho , sigamos em frente , há muito por construir!

    Gilmar Prado.

  • Postado por: Thais Lemos •

    A analise realizada é de grande importância para a percepção de tendências que já foram relevantes e outras que se perpetuam de geração a geração.

    • Postado por: Great Place to Work •

      Obrigado pelo elogio, Thais!

  • Postado por: simone ap stahlschmidt •

    Muito boa a matéria.

  • Postado por: simone ap stahlschmidt •

    Muito bom este texto.
    “As melhores são as maiores, não em tamanho, mas em grandeza.”
    É isso.

  • Postado por: simone ap stahlschmidt •

    “As melhores são as maiores, não em tamanho, mas em grandeza.”
    É isso.

  • Postado por: LUIZ FERNANDO DE ARAUJO CADUDA •

    Bom dia,

    Tinha e leio desde a primeira edição. Elas foram doadas para a Biblioteca da Faculdade de Administração em que ministrei aulas por mais de uma década. Ressalto que seus conteúdos foram utilizados em várias disciplinas do curso.
    Professor Luiz Fernando Caduda

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