Por: Guilherme Gobato

Sócio-fundador e Consultor pela Diálogos Entre Nós | Diversidade e Inclusão

Por: Guilherme Gobato

Sócio-fundador e Consultor pela Diálogos Entre Nós | Diversidade e Inclusão

9 setembro, 2020 • 10:30

Com os novos formatos de trabalho na pandemia, a demanda por inclusão digital aumenta e escancara as desigualdades do mundo real. Definitivamente, a vida digital não parece ser a realidade de todos no Brasil.

 

Considere os cenários abaixo:

Cenário 1 – O Marco Civil da Internet, instituído em 2014, define o acesso à internet como essencial ao exercício da cidadania no Brasil. Anos antes, em 2011, a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu a conectividade como um direito fundamental.

Cenário 2 – Uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet, segundo Pesquisa Pnad Contínua TIC IBGE (2018), divulgada em abril de 2020. Em números totais, isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros que não acessam a rede.

Cenário 3 – OMS declara, em 11 de março de 2020, pandemia global do novo coronavírus. Poucos dias depois, diversos Estados da Federação decretam quarentena com a obrigatoriedade de isolamento social.

Cenário 4 –  No novo contexto, trabalho e estudos na modalidade home office passam a ser, da noite para o dia, a única alternativa possível para parte dos trabalhadores e estudantes do país.

São “capítulos” que marcam parte da história do país na Era Digital. Capítulos que poderiam até contar uma história com desfecho feliz, se os dados não fossem os apresentados acima. No entanto, a narrativa destes capítulos se reflete nos fatos marcantes deste ano de 2020, um período de histórias muitas vezes trágicas.

A vida impõe seu próprio ritmo e cabe a nós, simples seres humanos, sermos resilientes e pacientes. No campo do trabalho e do ensino, a pandemia do novo coronavírus forçou a migração de muitas atividades para o mundo digital, que, por questões estruturais, acaba por reproduzir – e mesmo intensificar – muitas das desigualdades já percebidas no mundo offline.

Esperar que a transição forçada do mundo real para o digital contemplasse todos em idade ativa de trabalho beira utopia. Se parte expressiva da população não acessa ao menos um dentre alguns dos direitos básicos garantidos na Constituição, o que devemos esperar de conectividade? A Pesquisa Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE 2017 e 2018 aponta que quase 65% da população brasileira, com domicílio declarado, não tem acesso a um destes direitos: saneamento básico (37,6%), educação (28,2%), comunicação (conexão e uso da internet em 25,2%), proteção social (15%) ou moradia adequada (13%).

Na real, o virtual é desigual

Tão básica quanto a eletricidade, a conexão à internet é fator essencial para uma sociedade que não saiu completamente da estrutura 3.0 (em alguns casos, remonta a padrões anteriores) e aspira inserir-se em padrões 4.0. Diante disso, a partir de qual perspectiva falamos neste momento?

Falamos a partir de um país que figura entre os mais conectados por dia à rede, em média, 9 horas e 14 minutos de acesso. Até 2019, estávamos atrás apenas de Filipinas e Tailândia e cerca de 3 horas a mais de uso diário do que os Estados Unidos. No entanto, este uso expressivo de conexão de dados reflete, apenas, os que têm acesso à rede. Em nosso país, cerca de um quarto da população com 10 anos ou mais não tem acesso à rede, seja por computadores, smartphones ou televisão.

O acesso em si à rede no país está ano-luz de ser universal. São as classes sociais mais abastadas – A e B – as que mais estão conectadas (cerca de 90% dessas pessoas), em contraponto a 42% das pessoas nas classes D e E. Uma coisa é o acesso ou não à rede; outra é por qual meio se realiza. Neste caso, 85% dos usuários das classes D e E acessam exclusivamente pelo celular, que possui funcionalidades típicas voltadas a redes sociais e que não são ideais para estudos com maior profundidade, como cursos de graduação, e desempenho de funções laborais na modalidade home office.

Decorrente muitas vezes dos custos de conexão à rede ou mesmo pela inexistência de infraestrutura de qualidade, áreas rurais do país ainda se configuram como fronteiras a serem conectadas (apenas 44% estão integradas). Mesmo áreas urbanas, que concentram muito do tráfego de dados nacional, registram apenas 70% de integração dos moradores à rede.

Em um país que alimenta parte expressiva de sua população via auxílio emergencial durante a pandemia e que assiste dia após dia o aumento do desemprego formal, as dificuldades impostas pela pandemia do novo coronavírus são ainda mais desafiadoras. O mantra “fique em casa se puder” é ressignificado em bases diárias a “estude e trabalhe de sua casa se dispuser de equipamentos e conexão satisfatória de dados”. Trabalhar para evitar que desigualdades socialmente construídas no mundo offline sejam cada vez mais expressivas no mundo virtual – o que vulnerabiliza ainda mais populações já minorizadas em direito – é o diferencial de sermos ou não de fato inclusivos em bases coerentes e consistentes, on e offline.

Vamos nos ligar nessa?

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Confira outro artigo de Guilherme Gobato sobre diversidade:

+ Orgulho LGBTQIA+: um chamado por menos armários e mais amor

 

Crédito da imagem: Technology photo created by freepik – www.freepik.com

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