Por: Isabel Weiss

psicóloga clínica, doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), instrutora de Mindfulness certificada pela Universidade da Califórnia (USA) e organizadora do livro recém-lançado Mindfulness e Terapia Cognitivo-Comportamental, pela Editora Manole

Por: Isabel Weiss

psicóloga clínica, doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), instrutora de Mindfulness certificada pela Universidade da Califórnia (USA) e organizadora do livro recém-lançado Mindfulness e Terapia Cognitivo-Comportamental, pela Editora Manole

10 setembro, 2020 • 10:40

Não faz muito tempo, em meados de 2019, muitas pesquisas divulgavam pelo mundo afora as consequências danosas do uso abusivo da internet para a saúde mental. Antes da pandemia, muitas campanhas começaram a ser veiculadas no sentido de incentivar as pessoas a deixarem seu smartphone um pouco de lado, sob a justificativa de que estávamos vivendo uma era de “agonia contemporânea da vida digital”, como afirmava Cristiano Nabuco, PhD, coordenador do Núcleo de Terapias Virtuais do Hospital das Clínicas da USP.

Caracterizada por dispersão, estresse e, principalmente, uma incômoda sensação de vazio desencadeada pelo excesso de informações, de estímulos e de gratificações (curtidas, compartilhamentos, mensagens etc), uma espécie de síndrome surgia. Síndrome esta que acometeu muitas pessoas, especialmente àquelas que não conseguiam mais se desligar dos gadgets, segundo os pesquisadores da USP.

Vale ressaltar que o Brasil se tornou o campeão mundial em tempo de acesso à internet naqueles idos tempos, com uma média diária de 9 horas e 29 minutos. Estas horas comumente gastas no uso de WhatsApp (o brasileiro foi apontado como o povo que mais utiliza este aplicativo no mundo!).

Incrível imaginar que, em um contexto de hiperconectividade, pudéssemos sentir solidão e tudo o mais aqui descrito. As pesquisas já mostravam que abusar da tecnologia provocava uma espécie de “distanciamento social”, naquele período em que essas duas palavras juntas ainda não eram tão populares quanto agora.

Em 2020, nos vimos obrigados a nos distanciar mesmo, só que, desta vez, por medida de segurança. Precisamos nos afastar, nos isolar, fôssemos adictos da internet ou não. E este fenômeno vem assolando a humanidade, que passou a valorizar como nunca o contato e a conexão social.

Apontada como um dos principais pilares da saúde mental, por Richard Davidson, PhD, neurocientista da Universidade de Winsconsin, a conexão vem sendo prejudicada pela pandemia. Tivemos que nos restringir àqueles com quem dividimos as nossas casas, sendo que muitos vivem sozinhos. Sentir-se conectado a outro ser humano é o que nos torna humanos, segundo a jornalista e autora premiada Jennifer Moss escreveu no artigo “Dealing with social isolation” (“Lidando com o isolamento social”, em tradução livre para o português).

Somos seres gregários e acostumados a resolver nossas dificuldades em grupo. Quantos de nós, ao estarmos sozinhos numa viagem internacional, por exemplo, já vivenciamos este sentimento de solidão e, ao encontrar um desconhecido com quem podemos trocar algumas palavras, já nos sentimos completamente diferentes, mais amparados e solidários?

Atualmente, este sentimento de pertencimento no ambiente de trabalho se traduz pela necessidade de colaboração social e apoio, onde muitas organizações adotaram o trabalho remoto como alternativa no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. Já vínhamos de uma cultura de coworking sendo implementada em grandes centros como uma medida de mitigar o sentimento de solidão e isolamento naquele contexto descrito aqui anteriormente. E, desde março de 2020, muitos gestores se atentaram para a importância de cuidar da saúde mental de seus colaboradores, uma vez que, diante da possível solidão do home office, poderiam desenvolver transtornos de ansiedade, depressão e Burnout, provocando severos impactos na saúde e imunidade como um todo, assim como na produtividade.

Algumas ferramentas vêm sendo implementadas no sentido de promover a conexão humana neste momento da quarentena. Plataformas como Zoom e Google Meet se popularizaram, o que tem contribuído muito para um uso saudável da tecnologia, que saiu daquele patamar de alienação para o oposto: “Preciso ver e falar com meus entes queridos!”.

Outras plataformas vêm surgindo com uma proposta mais inovadora ainda, como bibliotecas virtuais (Quarantined Pages), onde a pessoa simplesmente compartilha aquele momento de leitura silenciosa com outras pessoas do mundo inteiro, todas reunidas para se conectarem em silêncio em torno de um hobby em comum. Há também aquelas que se reúnem virtualmente para assistirem “juntas” a filmes na Netflix (Netflix Party). Um colega de foco presente virtualmente, trabalhando juntos a fim de evitar dispersões em redes sociais (Focusmate) é outro recurso online que nos permite exercer nossa condição humana de compartilhamento!

Se antes disponibilizávamos muito tempo em redes sociais, em detrimento da presença face a face, hoje buscamos recursos onde realmente possamos estar em tempo real e sendo respondidos de forma simultânea a fim de evitarmos a solidão. Uma pesquisa da Smith School of Business da Queen’s University, em Ontario, no Canadá, revelou que a tecnologia precisa ser usada como ponte para a conexão humana, favorecendo o sentimento de pertencimento. De acordo com o estudo, o e-mail é considerado a ferramenta que mais atrapalha a conexão humana, diferentemente da conversa cara a cara, que tem mais sucesso do que 34 emails trocados de um lado para o outro.

No artigo How to manage the lonileness and isolation of remote workers (“Como lidar com a solidão e o isolamento dos trabalhadores remotos”, em tradução livre para o português), publicado pela Gallup, o autor Adam Hickman faz uma diferença interessante entre sentimento de solidão e isolamento. Ele ressalta que muitos trabalhadores se sentem isolados e solitários mesmo em trabalhos presenciais. Solidão por verdadeira falta de conexão entre equipes (incluindo seus gestores) e isolamento pela dificuldade de acesso a informações e materiais.

Solidão pode contribuir para o isolamento e vice e versa, mas os gestores precisam abordar isso com seus colaboradores, destaca Hickman (observe que este artigo é pré-pandemia). Ele cita uma pesquisa da Gallup sobre trabalho remoto feita antes da pandemia. O dado é de que 21% dos trabalhadores remotos apontaram a solidão como maior dificuldade naquele cenário.

Em trabalhos de consultoria em saúde mental nas organizações, partimos para identificação da necessidade, palavra-chave para traçarmos condutas na direção de metas. O que as pesquisas mostram nestes seis meses de priorização do trabalho remoto em muitas empresas e escolas é que a necessidade é de ENGAJAMENTO! E isto pode ser plenamente estimulado naquele que vem sendo considerado um dos momentos mais solitários da história da humanidade, através do uso da tecnologia para promoção de momentos de interação entre equipes no trabalho, assim como eventos sociais onde todos possam descontrair e se tornarem mais próximos.

Percebemos, como nunca, o quanto precisamos uns dos outros em nossas vidas, que o contato e o calor humano são essenciais! Os meios virtuais ainda não substituem o abraço e aperto de mão, mas vêm nos proporcionando apoio e nos mantendo conectados. Existem muitas vantagens relacionadas ao trabalho remoto, discutidas já em outras oportunidades aqui nos canais de comunicação do GPTW, e, talvez uma delas, é a oportunidade de refletirmos sobre nossas relações humanas. Uma reflexão que, assim esperamos, pode ajudar no resgate da verdadeira conexão que, como sociedade, estávamos perdendo.

 

+ Confira mais conteúdos produzidos em parceria com a Dra Isabel Weiss:

GUIA Como planejar a volta ao trabalho presencial após a quarentena
WEBINAR Impacto do retorno ao trabalho presencial na saúde dos colaboradores
WEBINAR Mindfulness pode ajudar no equilíbrio emocional dentro das empresas?

 

Crédito da imagem: House photo created by katemangostar – www.freepik.com

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