Os desafios e os caminhos para o crescimento na América Latina passam por criar relações de confiança, estabelecer parcerias e ter uma mentalidade inovadora
Durante os dois dias de imersão no Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, na Cidade do Panamá, que se propõe a ser um “Davos” da região, três atitudes necessárias determinaram os discursos e debates – tanto de líderes governamentais quanto de acadêmicos, pesquisadores e consultores: construir relações de confiança, estabelecer parcerias e desenvolver uma mentalidade voltada à inovação.
As reflexões geradas em mais de 50 painéis e palestras escancaram os desafios superlativos da América Latina – fruto de sua cultura, idiossincrasias e ideologias – e trouxeram também oportunidades de crescimento.
Foi interessante notar que as premissas que sustentam a trilha de sucesso para toda uma região são as mesmas que sustentam os caminhos de crescimento e superação no mundo corporativo. E aqui não se trata de falar de parcerias público-privada bastante abordadas também durante o Fórum. Mas de mudar uma mentalidade e comportamento de toda uma liderança capaz de provocar transformações eficientes em prol do bem comum.
E essa história conhecemos muito bem. Afinal, transformações e evoluções culturais começam na atitude praticada diariamente pela liderança. E, se não há disposição, clareza, boa vontade e uma boa dose de competência em tentar virar o jogo, a transformação não vai acontecer. Aqui destaco as três atitudes esperadas das lideranças, mencionadas na maior parte do tempo, por boa parte dos palestrantes.
Construir relações de Confiança
A sociedade hoje vive a maior crise de confiança já enfrentada, o que tem gerado desunião, más relações em todas as esferas e arruinado qualquer desejo de prosperidade. Caberá às lideranças – públicas e privadas – resgatarem esses laços.
Como? Escutando mais, falando com transparência, agradecendo as iniciativas, compartilhando conhecimento e boas práticas e celebrando conquistas. E essas atitudes só vão acontecer quando derrubarmos algumas barreiras mentais que nos impedem de aproximar mais de novas pessoas, novas ideias e novos comportamentos.
Quando as lideranças passarem a olhar mais para o todo e menos para si (e suas próprias ideias – no estilo: “eu conheço esse mercado, essa região, essa empresa melhor que vocês”), impulsionando o melhor de cada um (e o potencial de cada país), poderemos pensar em ter um base de confiança sólida para poder prosperar.
Estabelecer parcerias
“Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo; cada ser humano é parte do continente, parte do todo”. A frase escrita no século XVII pelo poeta inglês John Donne nunca foi tão atual. Afinal, problemas complexos não se resolvem em silos, e vantagem competitiva já não nasce apenas da competição, mas da colaboração inteligente.
Parcerias entre governos, empresas e até competidores diretos (algo que ainda nos soa tão distante) deixam assim de ser exceção para se tornar um instrumento estratégico de criação de valor. Nesse sentido, muito se falou sobre aprendermos a colaborar, alinharmos interesses e pensarmos juntos em soluções, sendo essas atitudes uma nova habilidade esperada das lideranças que pretendem reagir às mudanças – e não apenas assisti-las.
Inovação, produtividade e o ser humano na equação
E a Inteligência Artificial? O futurista e físico americano Michio Kaku foi a voz responsável por trazer o impacto do futuro no presente, com provocações e reflexões que reforçam as duas premissas anteriores: desenvolver relações de confiança e estabelecer parcerias como caminhos para sobreviver no mundo de mudanças rápidas.
Segundo Kaku, a inteligência artificial transformará profundamente o mundo do trabalho e trará mais produtividade para os negócios e para as pessoas, mas não eliminará aquilo que nos torna essencialmente humanos. Profissões ligadas à imaginação e que envolvem relações e conexões com pessoas tendem a ser menos afetadas. “Trabalhos que exigem liderança, sabedoria, julgamento, planejamento, gerenciamento, originalidade e criatividade são os mais difíceis de serem substituídos por robôs”, afirmou Kaku, que também trouxe a importância de abandonarmos o pensamento linear e adotarmos uma lógica mais próxima do pensamento quântico: capaz de lidar com múltiplas possibilidades, incerteza e interdependência.
Se há uma conclusão possível após dois dias de debates é que a transformação e a evolução dos negócios e da própria região não virá da tecnologia sozinha, nem de esforços individuais. Ela virá da qualidade das relações que construímos, das parcerias que somos capazes de estabelecer e da forma como colocamos o ser humano no centro: da estratégia, da inovação e do propósito.