Por: Aline Bernardes

Especialista em Conteúdo & Branding no GPTW Brasil

Por: Aline Bernardes

Especialista em Conteúdo & Branding no GPTW Brasil

30 abril, 2026 • 3:53

Uma leitura brasileira das ideias de Michael C. Bush 

A Inteligência Artificial deixou de ser um tema de futuro. Ela já está presente nas organizações, nos processos, nas decisões e nas conversas das lideranças. 

Embora ainda tímido, o interesse pela IA como prioridade em Gestão de Pessoas dobrou em um ano, alcançando 18,7% das empresas (Relatório Tendências em Gestão de Pessoas em 2026). 

Por que, apesar do investimento crescente, os resultados ainda não aparecem em muitas das empresas? 

No artigo AI success is a leadership test – and the 100 Best Companies lead the wayMichael C. Bush, CEO global do Great Place To Work®, propõe uma resposta que desloca o foco da tecnologia para a cultura. Segundo o executivo, a questão central não é o avanço da IA em si, mas a capacidade das organizações de construir confiança em torno do seu uso. 

A leitura faz ainda mais sentido quando observamos os dados mais recentes do Brasil. Este texto é uma análise baseada nas ideias de Bush, conectando sua análise global com evidências do Brasil.  

IA não escala quando fica restrita ao topo  

Michael C. Bush aponta que a IA só gera valor quando é usada de forma consistente por muitas pessoas, e não apenas por um grupo restrito de líderes ou especialistas. 

Essa constatação dialoga com um dado importante do nosso estudo Tendências em Gestão de Pessoas 2026: os próprios profissionais afirmam ter mais familiaridade com Inteligência Artificial do que as empresas onde trabalham.  

O contraste é claro. A tecnologia avança, mas a capacidade de traduzi-la em prática cotidiana ainda depende, majoritariamente, da liderança. 

O desafio está na gestão direta 

Bush observa que, na maior parte das organizações, a IA não deixa de chegar à linha de frente por resistência das pessoas, mas por falta de apoio e confiança dos gestores diretos. 

No Brasil, os dados do Estudo das Melhores Empresas para Trabalhar 2025 ajudam a explicar essa dinâmica. Quando comparamos empresas premiadas e não premiadas, aparecem diferenças relevantes na percepção das pessoas sobre respeito, credibilidade e imparcialidade, pilares centrais da confiança.  

Em algumas declarações diretamente ligadas ao comportamento da liderança, a distância chega a 10 pontos percentuais. 

Isso reforça que as pessoas não resistem à tecnologia, elas reagem ao ambiente que a liderança cria. Onde há orientação clara, abertura para aprender e segurança psicológica, a experimentação acontece. Já onde não há essa transparência, o medo tende a prevalecer. 

Comunicação é um dos pontos-chave 

Outro ponto destacado por Bush é o desalinhamento entre o que a liderança acredita comunicar e o que as pessoas de fato compreendem. Executivos tendem a avaliar que explicaram bem como a IA será usada. Os profissionais, muitas vezes, discordam.  

Segundo o CEO, os estudos globais do GPTW apontam que 83% dos executivos dizem que a mensagem é clara, enquanto apenas 37% dos trabalhadores da linha de frente concordam. 

O problema com a comunicação é sistêmico. Não à toa, a comunicação interna aparece entre os principais desafios das organizações brasileiras na pesquisa de Tendências 2026, com 28,2% das menções, e ocupa o primeiro lugar na América Latina, com 32,3%. 

Já nas Melhores Empresas para Trabalhar, o cenário é diferente. Nessas organizações, as pessoas avaliam de forma mais positiva a clareza das informações sobre mudanças, decisões e direcionamentos estratégicos. Isso não significa excesso de mensagens, mas consistência, linguagem acessível e coerência entre discurso e prática. 

Resistência ou insegurança? 

Bush também chama atenção para o impacto do medo em contextos de mudança tecnológica. Quando as pessoas não sabem o que vai acontecer com seus papéis ou se sentem ameaçadas pela substituição, a confiança se enfraquece. 

Referindo-se às empresas premiadas no ranking global The Fortune 100 Best Companies to Work For® 2026, Bush reforça: 

“Os líderes das 100 Melhores focam no que é eficaz, não apenas no que é eficiente – em resultados, não apenas no uso. Em crescimento, não em cortes. Em segurança, não no medo. Em mais humanidade, não em menos. A IA é usada para tornar o trabalho melhor para todos – e não mais assustador.”, afirma o CEO. 

Esse ponto é especialmente relevante no Brasil atual. O Tendências 2026 mostra que o sentimento de incerteza em relação às oportunidades de negócio atingiu 35,4%, o maior índice da série histórica, ainda que o otimismo siga predominante, com 63,4%. Ambientes mais incertos ampliam a ansiedade e tornam qualquer transformação mais sensível. 

Nas Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil e no mundo, o caminho é outro. A transparência aparece como prática consistente. As lideranças explicam o que muda, o que não muda e como as pessoas serão apoiadas. 

Diretrizes claras fazem a diferença 

Um dos dados mais objetivos apresentados por Michael C. Bush é que profissionais que atuam com diretrizes claras sobre o uso da IA têm seis vezes mais chances de já terem experimentado ferramentas de Inteligência Artificial. 

Essa constatação dialoga diretamente com o que o GPTW observa no Brasil há anos. Nas Melhores Empresas, as pessoas sabem e entendem os critérios de decisão, reconhecimento e desenvolvimento. Esse ambiente de previsibilidade reduz o medo de errar e aumenta a disposição para aprender.  

Inovação depende de como a liderança lida com erros 

Outro ponto central do artigo é a relação entre inovação e segurança psicológica e confiança. Bush reforça que a IA deve apoiar o julgamento humano, e não substituí-lo. 

No Ranking GPTW Brasil, os dados mostram que 24% das empresas premiadas estão no estágio mais alto (Acelerado) de inovação, contra apenas 7% das não premiadas. Além disso, organizações com maior maturidade em inovação apresentam crescimento médio de receita até 5,5 vezes superior às demais. 

Dentre as premiadas, as que se encontram no estágio Acelerado de inovação são aquelas em que os colaboradores afirmam que “as lideranças reconhecem erros não intencionais como parte do negócio.” 

Onde errar faz parte do aprendizado, as pessoas contribuem mais; onde o erro é punido, a inovação se retrai. 

As pessoas permanecem onde enxergam futuro 

Bush também toca em uma expectativa cada vez mais presente no mundo do trabalho: as pessoas querem saber se estão sendo preparadas para crescer, dentro ou fora da organização. 

No Estudo das Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil 2025, o principal motivo de permanência segue sendo oportunidade de crescimento, citado por 39% dos profissionais, seguido por qualidade de vida (30%) e alinhamento de valores (15%). Confiança, aqui, se traduz em investimento concreto no desenvolvimento das pessoas. 

O ponto central não é tecnologia, é maturidade de liderança 

Michael C. Bush encerra seu artigo afirmando que este é um momento que exige líderes capazes de construir confiança, reduzir medo e criar segurança. 

Por fim, compartilha dicas com base no que os líderes das 100 Melhores estão fazendo para construir confiança em torno da IA. Confira as dicas: 

  1. Dissipe o medo 
  1. Torne o aprendizado relevante para cada função 
  1. Mantenha as pessoas no centro das decisões 
  1. Crie espaço para o aprendizado entre as pessoas 
  1. Acompanhe e compartilhe os avanços no uso da IA 

Os dados do GPTW Brasil reforçam essa leitura. Organizações que colocam as pessoas no centro crescem mais, inovam mais e atravessam melhor os ciclos de incerteza. 

Talvez a pergunta mais relevante para as lideranças hoje não seja o que a IA pode fazer pela empresa, mas quanta confiança já foi construída para sustentá-la. 

Nota: O artigo reflete uma análise autoral baseada no pensamento de Michael C. Bush. Todos os trechos entre aspas são traduções livres e integrais das falas originais do executivo, sem adaptações de conteúdo.

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