Toda vez que eu falo de inovação, tento deixar claro que é comum imaginar inteligência artificial, tecnologias disruptivas ou grandes mudanças de mercado e até o famoso “reinventar a roda”. Mas, dentro das empresas, inovação normalmente começa de um jeito muito mais simples: uma pessoa percebendo que algo poderia funcionar melhor e sentindo segurança para falar sobre isso.
É justamente nesse ponto que o nosso indicador IVR (Innovation Velocity Ratio) vem tomando destaque e se tornando um indicador tão importante para as organizações.
O IVR mede a velocidade e a agilidade organizacional diante da inovação. Mais do que avaliar se a empresa está se movendo em direção a inovação, ele mostra a capacidade de uma empresa se adaptar, implementar soluções e criar um ambiente onde as pessoas conseguem participar ativamente das mudanças.
Na prática, o indicador nos ajuda a entender se os colaboradores encontram espaço para contribuir, sugerir melhorias, testar ideias e inovar no dia a dia.
Além da análise cultural e comportamental, o IVR também possui uma lógica técnica de classificação baseada na percepção dos colaboradores sobre o ambiente de trabalho.
O cálculo do indicador considera a proporção entre dois grupos:
- colaboradores “prontos para inovar”
- colaboradores “experimentando atrito”
Essa classificação acontece a partir de uma pergunta-chave presente na pesquisa:
“No último ano, quantas oportunidades significativas você teve para desenvolver novas e melhores formas de trabalhar?”
Os colaboradores que respondem:
- “Várias oportunidades” são classificados como pessoas prontas para inovar;
- “Poucas oportunidades” ou “Nenhuma oportunidade” são considerados colaboradores que experienciam atrito à inovação.
A partir dessa relação, é possível entender a velocidade de inovação da organização.
Por exemplo:
- uma empresa com proporção de 11 colaboradores prontos para inovar para cada 2 em atrito é considerada em estágio Acelerado;
- empresas com razão de aproximadamente 5 para 2 ficam em estágio Funcional;
- enquanto organizações próximas de 3 para 2 são classificadas em estágio de Atrito.
Nas pesquisas, isso significa que o IVR não mede apenas ideias disruptivas ou quantidade de ideias geradas. Ele mede a capacidade cultural da organização de transformar participação, adaptação e confiança em movimento real de inovação. Aquela coisa de solo fértil brota flores.
As organizações podem se encontrar em três estágios diferentes:
- Acelerado: a grande maioria dos colaboradores encontra condições favoráveis para inovar;
- Funcional: existe movimento, mas ainda há barreiras que desaceleram as mudanças;
- Atrito: metade ou menos dos colaboradores encontram um ambiente propício à inovação.
E aqui existe um ponto importante: inovação não significa necessariamente reinventar a roda.
Muitas vezes, inovar é também se adaptar e aceitar a mudança, é conseguir melhorar um processo operacional. É uma liderança ouvir uma sugestão da equipe. É um colaborador sentir que pode questionar algo sem medo, ou ser quem ele genuinamente é no ambiente de trabalho. É existir abertura para testar sem que o erro seja tratado como fracasso absoluto.
Recentemente, durante um grupo focal em uma empresa industrial, vivi uma situação que me marcou bastante.
A conversa estava planejada para durar duas horas, mas poderia facilmente ter continuado por muito mais tempo. Os colaboradores tinham inúmeras ideias de melhoria para a empresa, exemplo: ajustes operacionais; melhorias de comunicação; redução de retrabalho; mudanças simples na rotina que poderiam gerar mais eficiência no dia a dia.
E enquanto eu ouvia aquelas pessoas, uma pergunta ficou na minha cabeça o tempo inteiro: “essas lideranças realmente escutam essas pessoas?”.
E eu perguntei isso e a resposta foi: “Nós conversamos com os líderes, mas eles não fazem nada”.
Muitas vezes, o conhecimento sobre os problemas e oportunidades já existe dentro da operação. As pessoas sabem onde estão os gargalos, o que gera desgaste, o que atrasa processos e até o que poderia funcionar melhor.
Mas existe uma grande diferença entre ter pessoas com boas ideias e ter um ambiente onde elas sentem segurança e vontade para compartilhá-las. Depois de sugerir melhoria e nada ser feito, as pessoas também perdem a vontade de repetir a sugestão.
E talvez a reflexão mais importante tenha sido justamente essa: por que foi necessário alguém de fora para ouvir o que já estava ali dentro? Será que a máxima “santo de casa não faz milagre” é o caso?
No fim, inovação não acontece apenas quando surgem novas tecnologias ou grandes projetos estratégicos. Ela também acontece quando as pessoas percebem que suas contribuições importam, mesmo que sejam pequenas, como a sugestão que os colaboradores dessa empresa me trouxeram: “criar uma área de café para o turno da noite (uma vez que o refeitório encerra após o jantar)”.
Empresas inovadoras não são apenas empresas criativas. São empresas que criam segurança, escuta e confiança.
Isso porque a inovação dificilmente acontece em ambientes onde:
- as pessoas sentem medo de errar;
- ideias são ignoradas;
- decisões são extremamente centralizadas;
- existe excesso de burocracia;
- o reconhecimento não acontece;
- ou os colaboradores acreditam que “nada muda”.
Na experiência de muitas organizações, o maior bloqueio para inovação não é falta de talento. É falta de ambiente, escuta e comunicação.
E o mais interessante sobre o IVR é justamente essa visão mais humana da inovação. O indicador não olha apenas para resultados ou tecnologia, mas para as condições culturais que aceleram ou travam o movimento das pessoas dentro da empresa.

O estudo das empresas premiadas no ranking Melhores Empresas Para Trabalhar™ – Brasil 2025 reforça uma relação importante entre inovação e segurança para errar.
Ao analisar a declaração: “as lideranças reconhecem erros não intencionais como parte do negócio”,
é possível perceber uma tendência clara: quanto maior a percepção positiva sobre essa prática, maior também o índice de inovação das organizações.
As empresas classificadas em estágio “Acelerado” de IVR concentram os maiores índices de concordância nessa afirmação, enquanto organizações em estágio de “Atrito” aparecem nos níveis mais baixos.
O dado evidencia um comportamento comum em culturas inovadoras: a inovação dificilmente prospera em ambientes onde o erro é tratado apenas como falha.
Mas calma! Isso não significa tolerar negligência ou ausência de responsabilidade. Significa que testar novas abordagens envolve riscos, aprendizado e ajustes ao longo do caminho, envolve presença da liderança, apoio e escuta ativa.
Na prática, empresas mais inovadoras costumam criar ambientes onde:
- as pessoas conseguem expor ideias sem medo;
- líderes incentivam participação;
- tentativas são valorizadas mesmo quando o resultado não é perfeito;
- e o aprendizado faz parte da cultura.
Muitas organizações afirmam desejar inovação, mas poucas percebem que ela exige um ambiente emocionalmente seguro para acontecer de forma consistente.
Esse debate se torna ainda mais relevante quando observamos a dificuldade que muitas empresas têm enfrentado na implementação da Inteligência Artificial no ambiente de trabalho.
Estudo recente da Gallup (State of the Global Workplace 2026) mostra que o principal desafio da adoção de IA não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como as organizações conduzem mudanças culturais, liderança e adaptação das equipes.
Entre as principais barreiras identificadas estão:
- falta de clareza sobre como utilizar a IA no trabalho;
- baixa integração das ferramentas na rotina;
- resistência às mudanças;
- medo relacionado à substituição de funções;
- e ausência de apoio das lideranças durante o processo.
Ou seja: empresas podem investir milhões em tecnologia e ainda assim não conseguir acelerar inovação se as pessoas não se sentirem preparadas, ouvidas e seguras para experimentar novas formas de trabalhar.
Isso reforça uma provocação importante: inovação não acontece apenas porque existe tecnologia disponível.
Ela acontece quando existe um ambiente capaz de transformar tecnologia em comportamento, colaboração e evolução contínua.
Quando existe confiança, clareza de propósito e abertura para participação, os colaboradores tendem a assumir mais protagonismo, colaborar mais e buscar soluções com maior velocidade.
Por outro lado, ambientes com alto nível de atrito acabam reduzindo a capacidade de adaptação da organização. E isso impacta diretamente a produtividade, engajamento, permanência de talentos e até resultados financeiros.
No fim, empresas inovadoras não são aquelas onde apenas algumas pessoas podem criar. São aquelas onde existe espaço para que todos contribuam.
Porque inovação não começa na tecnologia.
Ela começa com confiança.
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